O grau zero da existência
Existe um laboratório algures na antiga União Soviética em que as pessoas escolhem ser mantidas em criogenia. Chama-se "Convergência".
Ross, o ideólogo da "Convergência", convida o seu filho Jeffrey Lockhart a visitar as instalações. Será Jeffrey a narrar as características das instalações e a realidade das pessoas que esperam pela interrupção voluntária das suas vidas. O objectivo dos hóspedes é vencer a doença, a mortalidade. Perante o avassalador desenvolvimento da tecnologia, Jeffrey resiste. A manutenção de um smartphone obsoleto é um sintoma de renitência perante tal fulgor tecnológico.
Don DeLillo, um dos mais importantes escritores norte-americanos da actualidade, subordina a história às ideias que quer desenvolver. "Zero K" (Sextante) aprofunda o sempiterno dilema do homem perante o seu fim. Há ideias a explorar e uma mensagem a transmitir. Demasiado enredo e descrições minuciosas iriam obscurecer essas intenções:
"Eu podia ter feito uma ou duas perguntas. Que cadeira, que quarto, que cidade, que país? Mas dei-me conta de que isto teria sido uma afronta ao método narrativo do homem".
DeLillo interroga-se sobre o fim da vida como parte integrante da própria vida. A impossibilidade de morrer é uma descaracterização do ciclo de existência do ser humano. As palavras citadas de Santo Agostinho são o mote para o desdobramento das suas interrogações:
" Nunca, na verdade, haverá para o homem pior desgraça na morte de que chegar onde a própria morte não será morte"
A Moral que conhecemos é fragmentada e tudo é posto em causa. A existência do Ser Humano fragmenta-se, reconfigura-se. A Fé em Deus desloca-se para a tecnologia. O primado da lógica e da razão é levado ao limite.
"Tecnologia assente na fé. Eis do que se trata. Outro deus. Não muito diferente, no fim de contas, de alguns deuses anteriores"
O adiamento (ou fim) da morte vem no seguimento da ideia de fenomenologia de Husserl, em que se perspectiva a relação do homem com a sua experiência e com tudo o que é novidade, e com a ideia de desconstrução derridiana do ser e das estruturas sociais que o apoiam. Mas apesar da desconstrução, o Homem caminha para um novo logocentrismo.
As ideias de Derrida, que apareceram primeiro com Husserl, em "Origem da Geometria", estendem-se à Linguagem.
Debaixo de uma calma superfície, existem diversas camadas de sentido, cuja descodificação depende da competência de cada leitor. A simplicidade é enganadora. DeLillo vincula a existência do homem à linguagem e suas diversas declinações.
Noam Chomsky afirma, em "Linguagem e Pensamento", que "Ao estudarmos a linguagem humana aproximamo-nos do que se poderia chamar a "essência humana", as qualidades distintivas da mente que são, tanto quanto sabemos, exclusivas do homem".
Chomsky, que partilha com Derrida o desacordo com o estruturalismo de Saussure, vincula a linguagem à consciência.
Em "Zero K", a nova relação com a morte obriga a uma redefinição da consciência do Ser Humano. A memória das experiências é suspensa para mais tarde ser reactivada. Os órgãos do corpo são retirados e abrigados em cápsulas. O indivíduo entra num estado de suspensão. O tempo e o espaço são redefinidos. As coordenadas são suspensas. É-se algo que a linguagem é incapaz de resolver, um tempo na primeira e na terceira pessoa. A identidade é reformulada devido à nova relação com o espaço e o tempo. E com a Linguagem:
"Será que sou alguém ou serão somente as palavras em si que me levam a pensar que sou alguém", interroga-se Artis Martineau, no único capítulo em que a voz não pertence a Jeffrey.
Para Fromkin e Rodman, nos seus estudos sobre a Linguagem, algumas tribos africanas consideram a criança uma coisa (kuntu); só após o aprender da linguagem esse kuntu se transforma numa pessoa (muntu).
No espaço impessoal da "Convergência", inventa-se "uma língua isolada, a salvo de qualquer filiação com outras línguas" aprendidas por uns, implantada nos que já estão em criopreservação.
"Um sistema que irá proporcionar novos significados, novos níveis de percepção em toda a sua plenitude"

Lacan foi mais longe do que Freud. Aos hábitos de discurso analisados por Freud, Lacan acrescentou as formas simbólicas e codificadas.
Nas suas deambulações pelos corredores da "Convergência", Jeffrey tenta descodificar o significado de artesanato, instalações, imagens ou vídeos presentes. As peças de arte vão demonstrando a intersecção entre épocas clássicas e contemporâneas, entre ideias religiosas ocidentais e orientais. Desde a estrutura das instalações até ao corpo de Artis, tudo é Arte, ou seja, tudo é metáfora de linguagem verbal.
Uma das possíveis interpretações do nome da madrasta, única pessoa a narrar além de Ross, é a de remeter exactamente para Arte.
Artis, de seu nome, é uma obra arte da tecnologia. Artis, genitivo de “Ars, Artis” pode significar "Arte, Técnica, Saber". Tudo o que a "Convergência" almeja significar.
Será com espanto que Jeffrey perceberá que a essência da comunicação se encontra "nos gritos de pasmo de um rapazito" perante um acontecimento quotidiano.
A nomeação de autores e teorias de diversas áreas tem como objectivo sugerir ao leitor que não interprete "Zero K" como um texto simples. É muito mais do que isso. O usufruto estará dependente da vontade de o leitor aprofundar a leitura, “mergulhar” no texto. Há muito mais do que a falsa calma na superfície. A acrescentar às teorias que serviram de chave de leitura de “Zero K” há ainda esta: a de Recepção. A experiência de Jeffrey foi moldada por todos os acontecimentos que ficaram na sua memória. O passado formou a interpretação de toda a simbologia existente. Cabe ao leitor levar a sua experiência para o livro com o intuito de iluminar os sentidos obscuros de um livro demonstrativo da qualidade do seu autor.
A literatura de DeLillo continua a ser persuasiva, perturbadora e actual.
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=855738
0 Comentários