David Foster Wallace (n. 1962), professor,
ensaísta, e um dos mais promissores escritores da sua geração, enforcou-se
quando tinha 46 anos. Antes de sucumbir perante sucessivas espirais
depressivas, o autor legou aos leitores a sua “magnus opus”:
-Uma vertiginosa montanha-russa intitulada
“A Piada Infinita” (Infinite Jest).
“A Piada Infinita”, obra composta por 1198
páginas na edição da Quetzal, é uma exuberante viagem dentro da labiríntica e
conturbada mente do seu autor.
Segundo o pai de Foster Wallace, em
declarações ao NY Times de 14 de Setembro de 2008, o escritor tomava medicação
para a depressão desde os 26 anos. Foi esta medicação que permitiu que ele
pudesse trabalhar. No campo ficcional, o autor escreveu “The Broom of the
system” (Romance, 1987), “Infinite Jest” (Romance, 1996), “The Pale King”
(romance inacabado), “Girl with curious hair” (narrativas curtas, 1989), “Brief
interviews with hideous men” (narrativas curtas, 1999) e “Oblivion: stories”
(narrativas curtas, 2004).
No entanto, no último ano de vida, a
medicação começou a produzir efeitos colaterais que obrigaram o médico a
sugerir a interrupção do tratamento. Em consequência, a depressão voltou e
outras alternativas, como a electroterapia, foram utilizadas. Nenhuma foi
bem-sucedida.
Suicidou-se em 2008.
É importante ter em consideração a ligação
entre os distúrbios de personalidade do escritor e a sua obra completa
(ficcional e não-ficcional). Até que ponto a sua escrita seria tão incisiva, se
não fossem as constantes depressões, o abuso de substâncias e os raros momentos
de pacificação? Romantizar a loucura de Foster Wallace não parece ser a melhor
forma de apreender a complexidade do seu pensamento. Aliás, seria até
contraditório com o hiper-realismo/”histerical realism” presente em “A Piada
Infinita”
O biografismo, apesar de poder ser
importante, é menos relevante do que a credibilidade existente dentro de
qualquer texto literário. Este não tem de ser um relato da realidade, mas tem
de ser credível. O “hype” criado à volta da figura “David Foster Wallace” tem
paralelo na juvenil admiração por Kurt Cobain ou Jim Morrison. O que é um
elemento importante na temática do livro ganha tal relevo que transita para o
assunto do livro. É necessário perceber que o biografismo é parte integrante
desta obra, mas não é o assunto da mesma.
A leitura da produção literária, além
deste livro, é importante para a compreensão do “magnus opus”. Os documentos
paratextuais, compostos por ensaios tão importantes como “Consider the lobster
(2004)”, “E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction (1993)”, “Federer as
Religious experience (2006)”, “Tennis, trigonometry, Tornadoes: A Midwestern
Boyhood (1991)”, permitem aprofundar o sentido de uma obra tão contraditória em
si mesma como em comparação com as expectativas do leitor.
2
A acção de “A Piada Infinita” decorre num
futuro próximo, quando os Estados Unidos da América, o México e o Canadá
compõem a Organização das Nações da América do Norte (ONAN).
Movimentos independentistas e
reaccionários procuram aceder ao conteúdo, por opostas razões, de um famoso
filme que tem a capacidade de colocar os espectadores num tal estado de inacção
e dependência que pode causar-lhes a morte. O filme foi criado por J.O.
Incandenza, patriarca da família Incandenza, composta pela esposa Avril e os filhos
Orin, Hal e Mário.
A família Incandenza fundou a “Ennfield Tennis Academy” que fica muito
perto da “Ennet House Drug and Alcohol
Recovery House”.
Entre consumo de substâncias proibidas,
desintoxicações, ténis, cinema, alienação, espionagem, e um conjunto variado de
outros assuntos “satélite”, Foster Wallace sugere ao leitor uma difícil,
exigente, hilariante e, por vezes, fastidiosa viagem.
“A
Piada Infinita” contraria o desenvolvimento esperado da leitura devido à
estrutura modular da narrativa. Esta obra é transversal a vários géneros
narrativos. A sua plasticidade desafia a estrutura canónica deste género
literário.
David Foster Wallace movimenta-se entre
diversos planos de realidade, demarca os capítulos, reconstrói sintacticamente
as frases, ao ponto de as tornar - propositadamente- em agramaticais, enriquece
o texto com léxico que faz com que o leitor se confronte com um complexo
desafio semântico, e recorre a diversos níveis de língua.
“Outros termos e palavras que Gately sabe que não conhece de lado nenhum
começam a enfiar-se-lhe em catadupa na cabeça, com a mesma e tenebrosa força
intrusiva, como, por exemplo, ACCIACATURA e ALAMBIQUE, LATRODECTUS MACTANS e
PONTO DE DENSIDADE NEUTRA, CLARO-ESCURO e PROPRIOCEPÇÃO E TESTUDO e ANELADO e BRICOLAGE
e CATALÉPICO e FALSIFICAÇÃO DO RECENSEAMENTO ELEITORAL e ESCOLOPOFILIA e
LAERTES – e, assim de repente, Gately lembra-se dos próprios e já pensados
SALIENTE, ESTRIGIL e LEXICAL – e LORDOSE e TRIBUTO e SINISTRAL e MENISCO e
CRONAXIA e POOR YORICK e LUCULUS e MONTCLAIR COR DE CEREJA e depois DE SICA
NEORREALISTA GRUA COM DOLLY e CIRCUM-AMBIENTEDRAMAENCONTRADOCASAMENTOLEVIRATO
(…) ” Pág. 930
As mudanças de ritmo narrativo transportam
o leitor desde o tédio até às situações mais hilariantes.
Será “A Piada Infinita” uma obra
desequilibrada?
Provavelmente, Foster Wallace quis que o
leitor sofresse a inconstância anímica que está tão presente no livro. É
proposto ao leitor que viaje até ao fim do texto passando por ensaios, pequenas
narrativas, “stream of consciousness”, longas descrições dos contextos e
ambientes, e situações intensas e absurdas. Tudo, presumivelmente, ficcional. É
uma “trip” através de vários géneros literários.
Um dos grandes méritos do autor é ter
conseguido abranger a textualidade de uma forma ímpar. Ele analisa a sociedade
que o rodeia (exterior), analisa-se a si (interior) e, principalmente, expõe ao
leitor a dialéctica entre o indivíduo e a sociedade. Ao fazê-lo, consegue
resgatar o papel de autor de uma textualidade global que, de acordo com o
pós-estruturalismo/desconstrucionismo de Derrida, Barthes ou Foucault, implica
o desaparecimento da voz única que se manifesta num autor. Dito de outra forma,
existem vários centros temáticos dentro da narrativa, onde cada um compete
entre si, dotando o texto, desta forma, de várias camadas interpretativas.
David Foster Wallace articula, de uma forma que o faz sobressair entre pares,
as várias possibilidades de interpretação. Ele observa e é, por si,
observado. É uma ideia que se encontra, também, no seu ensaio “E unibus
pluram: television and U.S. Fiction” e, inclusive, num ensaio sobre o
modernismo e pós-modernismos através de duas séries televisivas (“Havai: Força
Especial” e “A Balada de Hill Street”) inserido em “A Piada Infinita”.
Segundo o escritor, qualquer ficcionista é um observador. O comportamento
humano é “alimento” para todos os escritores. No entanto, um observador não
gosta, normalmente, de ser observado. A televisão oferece aos escritores e/ou
telespectadores esse tipo de espectáculo com uma só via: observar e não ser
observado. David Foster Wallace faz o paralelismo entre pessoas solitárias e
escritores. Ao declinar ser observado, mas fomentar a sua observação, um
escritor limita a ligação emocional com outros seres humanos. Mantém-se fora de
uma relação. A televisão optimiza esse processo. Ao haver um mecanismo entre
observador e observado e, sobretudo, haver a noção de que já não se está
perante a realidade, mas perante uma representação da realidade, a alienação
atinge nova profundidade.
Ao coordenar estes dois eixos temáticos na
narração, Foster Wallace consegue construir uma imagem psicológica/individual e
sociológica/colectiva. O individuo é fruto da combinação entre a sua herança
genética, a sua própria percepção da sociedade em que se insere, e as escolhas
por si tomadas, que serão parte fundamental na formação da sua “psicologia de
senso comum”
Sob diversas formas, a alienação social e
individual é abordada através do entretenimento. Mas o autor vai mais longe.
Ele observa o espaço intransponível entre os indivíduos. De entre as imensas
personagens que habitam esta obra surge um sentimento de solidão partilhada.
Estão sempre sós emocionalmente, apesar de haver ou não pessoas em redor de
determinado indivíduo. Este é o grande drama de “A Piada Infinita”.
A sociedade é composta por indivíduos que,
na essência, não partilham soluções. São pessoas sozinhas dentro de uma
multidão.
“ (…) Como podemos ser amigos? Mesmo que todos vivamos e comamos e tomemos
duche e joguemos juntos, como podemos deixar de ser cento e trinta e seis
profundamente sós, embora estejamos aqui todos amontoados?
- Estás a falar de comunidade. Isto é uma arenga comunitarista.
-Para mim é a alienação.” Pág. 127/128
Quando o autor descreve situações de
ansiedade extrema devido à privação de drogas, ou casos de depressão
major, a prosa atinge o leitor de forma violenta. No entanto, é nos diálogos e
na hipotética interacção dos intervenientes que mais sobressai a
impossibilidade de empatia e capacidade de entender o Outro.
Isto no plano individual. Quando é
explicado o funcionamento de um jogo como Eschaton,
percebemos a inconstância e precariedade das relações entre poderes políticos e
económicos. Eschaton, palavra que significa
Dia do Julgamento Final (Novo Testamento), é uma invenção que combina o
individualismo do ténis e a conquista geográfica e de poder por parte de
combatentes. Escathon é uma guerra
mundial construída com uma imensa parafernália que o autor faz questão de
mencionar exaustivamente.
“Durante o jogo as ogivas atómicas de cinco megatoneladas só podem ser
lançadas com raquetas de ténis. Daí, a exigência de real destreza técnica para
acertar no alvo que distingue o Eschaton de outros jogos de holocausto tipo
«liga rotisserie» praticados com transferidores e PC em mesas de cozinha. O voo
parabólico e transcontinental de um veículo estratégico de transporte de
combustível líquido é bastante parecido ao de um balão com efeito.” Pág. 356
É um dos momentos em que os dois eixos
temáticos se interseccionam: o que respeita ao indivíduo e o que respeita ao
colectivo.
3
David Foster Wallace expõe-se sem
reservas. E pede o mesmo ao leitor. “A Piada Infinita” é um grande desafio. É
um jogo de ilusões, de máscaras e de espelhos. Ao terminar-se a leitura
chega-se a uma conclusão: Ficou muito sentido por apreender. A releitura é
imposta pela complexidade estrutural da obra assim como pela intensidade e
profundidade do que é exposto. Os ensaios, que são inclusivamente nomeados no
livro, enriquecem a activação do sentido. Em suma, o leitor não se iluda. São
1198 páginas que obrigam releitura. E não só. A própria tradução apresentou-se
como um hercúleo desafio aos tradutores. Como transportar toda a complexidade
sintáctica, lexical e semântica desde a língua de partida (inglês) para a
língua de chegada (português)?
Devido ao trabalho elaborado pelo autor
norte-americano na (re)criação lexical e na singularidade de algumas
construções sintácticas, por exemplo, o leitor que queira aprofundar a leitura
de “A Piada Infinita” deve ler a versão portuguesa, confrontá-la com a versão
inglesa (não foi feito para este artigo), e enriquecer a leitura com o que é
exposto na produção não-ficcional. Uma tarefa entregue aos devotos de David
Foster Wallace.
Como canta Bono, dos U2, por quem o autor
nutria admiração:
Hello, Hello// I'm at a place called vertigo” (Vertigo)
Mário Rufino
1 Comentários
Dizes e concordo plenamente, é um livro desequilibrado.
Para terminar, diria ainda que este teu texto tem, sobre todos os outros que vou encpntrando, a vantagem de desvendar alguma coisa do que lhe dá forma, evitando os vazios "uma obra monumental", "um épico de uma ambição", "a voz mais original"... Aqui, quem estiver curioso, percebe se deve ou não avançar na leitura. Excelente texto, Mário.
Agora, se me dás licença, vou "sofrer" mais um bocado.
Boas leituras!